18 abril 2014

Voltando no tempo para saber mais

Trecho do Trabalho de Conclusão de Curso 'Indivíduo coletivo",
baseado no cap 1 de Educação pelos Meios de Comunicação, de Grácia Lopes Lima

Kaplún, argentino de origem, criador do termo educomunicação, foi contemporâneo do filósofo brasileiro, Paulo Freire que, tanto quanto ele, assumiu explicitamente o compromisso de contribuir para a construção de uma América Latina que deveria se recusar à “domesticação ou invasão cultural”. 

Por esse motivo, não poderia ficar alheio aos efeitos da comunicação sobre a vida dos latino-americanos e a respeito desse tema se posicionou.

Para ele a comunicação era entendida como um fenômeno social de estreita relação com a cultura, sinônimo de ação humana sobre as coisas da natureza.


Tanto quanto Freire, Kaplún sabia que a comunicação, desde a sua origem, se constituiu pela estreita ligação com a noção de “integração da sociedade” (MATELLART, 1999), do ponto de vista econômico; que se relacionou inicialmente com a expansão das “redes materiais”, dentre as quais as ferroviárias – consideradas as grandes propulsoras do progresso, estendendo-se com o tempo às “redes espirituais”, ligadas às finança, e por fim, à “gestão de multidões”, ou seja, à necessidade de controle social das “massas” concentradas nas emergentes áreas urbanas.

Tinha conhecimento de que, da metade do século XIX até a segunda guerra mundial, solidificou-se uma lógica de que o progresso só poderia atingir a periferia por meio da irradiação pelos valores de um centro (MATELLART, 1999:19), e que essa teoria difusionista ou desenvolvimentista, propagada pelos Estados Unidos, era a mesma que se instalou nos países do cone sul, calcada na idéia de que as tecnologias serviam para a resolução de desequilíbrios sociais.
Buscando contribuir para a conscientização dos povos latino-americanos, Kaplún denunciou as características da Comunicação Social ou “indústria da comunicação”, como propõe Bordenave (1982), sob influência de uma teoria funcionalista, mecanicista, formulada na década de 1940 pelos estadunidenses Lasswell e Shannon (COHN, 1978), num momento crucial em que os Estados Unidos buscava de todas as formas a manutenção e fortalecimento do sistema capitalista. 

Colocou em prática cursos de “Leitura Crítica” (BORTOLIERO,1996), junto às camadas pobres da população de países como Peru, Uruguai, Venezuela e Argentina, como meio de esclarecer-lhes que os empresários da comunicação (detentores dos meios de transmissão e controladores dos conteúdos das mensagens), seguem uma fórmula semelhante à lógica matemática para atingir uma única grande meta: motivar a compra de produtos e serviços, de uma maneira rápida e massiva.

Mario Kaplún não tardaria muito, contudo, à conclusão de que o tom denuncista dessa proposta não mudaria os hábitos de consumo dos meios por parte da população pobre. Em vez de alertar sobre os efeitos nocivos dessa comunicação, passou, então, a desenvolver com os pequenos agricultores, organizados em sindicatos e cooperativas, uma prática de uso dos meios de comunicação com finalidade educativa, deslocando-os do papel de receptores para o de também produtores de comunicação.


Mais uma vez é preciso ressaltar que o novo encaminhamento da sua proposta resultou da revisão crítica de seus pressupostos e reafirmou as convicções ideológicas de seu proponente. O Cassete Fórum se configurou, assim, como um método, ou seja, um meio de intervir numa realidade específica, buscando intencionalmente transformá-la. Retomando Diaz Bordenave (1982: 19), para quem “la democratización de la comunicación debe comenzar (y terminar) en el dialogo participativo del pequeño lugar”, o próprio Kaplún declarou que 

es para organizaciones de esta naturaleza para las que ha sido concebido y diseñado el Cassete-Foro. Para ponerlo a su servicio como instrumento, como arma de organización.”
    (KAPLÚN, 1984: 11)

A dimensão educativa de sua ação logo se anuncia na própria definição do Método Cassete-Fórum: 

El Cassete-Foro es un sistema de comunicación para la promoción comunitaria y la educación de adulto, puesto al servicio de organizaciones populares – rurales y urbanas – centrales cooperativas, centros de educación popular etc.”
Palavras como “participação”, “integração”, “mobilização” deixam claro que seu trabalho se propõe a ser
Un instrumento útil (...) para dinamizar a las organizaciones populares y ayudarlas en su expansión y su fortalecimiento para desarrollar la capacidad organizativa de las bases y sus procesos de autoeducación política.”
(KAPLUN, 1984: 13)
Ou seja, “(...) introducir elementos de reflexión, de conciencia crítica, de estímulo a la libertad y a la solidaridad” (KAPLÚN, 1984:45), na formação de homens e mulheres das camadas populares, consumidores de uma comunicação massiva que tenta mantê-los apáticos ou “completamente analfabetos” (Freire, 2000: 110) diante dos problemas que vivem, para que se assumam como sujeitos e, uma vez organizados, mudem a história.
Em suma, esse pensador opôs-se à miséria instaurada na América Latina, onde os governos, centralizados nas mãos de uma elite opressora e violenta, controlavam os recursos econômicos em favor de si mesmos. Daí a razão pela qual, com veemência, denunciou a invasão cultural especialmente importada dos Estados Unidos, tão ardilosamente difundida pelos meios massivos de comunicação, que serviam de apoio às ideias antidemocráticas das elites do poder.
Vislumbrava na Educação e na Comunicação, respectivamente, a possibilidade de promoverem nas massas a consciência crítica necessária para uma mudança na estrutura do Estado.



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